Mutretas e monaretas

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Saturday, May 27, 2017

Fim do caminho

Finalmente você se foi. Agora posso chorar essa morte como esperei por esses anos. As possibilidades acabaram e com elas o medo e a espera. Tive de forçar sua mão, de me impor, de insistir, de ser o chato. Mas está valendo à pena. Cada momento de saudades inauditas, cada hesitação em mostrar ou não alguma coisa, cada sensação de falsa sincronicidade, tudo parece distante agora. Como um sonho que se esquece ou pesadelo realizado. Tudo se encaixa numa finda narrativa.
Sua agressividade veio como um batismo, a confirmação de todos os medos. A certeza que não houve nem haverá perdão. No fim parece adequado, justo e imensamente merecido. Eu terminei o laço, eu fugi da responsabilidade de te fazer feliz, eu traí sua confiança e estranguleiseu amor. Se existe um culpado ideal, ele me olha no espelho toda manhã.
Vou levar comigo seu jeito de me amar, seu cuidado nos meus pesadelos e sua receita de lasanha. O que sobra de mim em você eu nunca saberei, mas já não importa, porque posso seguir sabendo que foi real o suficiente para você não aguentar minha presença ainda que virtual no seu mundo. Isso só é possível se o amor foi real. E esse é melhor jeito de sair do seu caminho e você do meu. Sabendo que foi.

Tuesday, April 25, 2017

Meio do caminho

O difícil é começar. É olhar para dentro e enxergar algo de forma precisa. Difícil é confessar.
O que dói é não saber de você. Imaginar onde e como são seus dias, noites, festas e tristezas. Sabendo apenas que nenhuma delas me pertence mais. Que agora eu me tornei apenas uma fase, enquanto que o contrário ainda não é verdade para mim. A eterna injustiça da saudade que não é mútua.
Te evito com força. Fujo das suas redes, não olho seu retrato, não procuro saber. Mas não de um modo sadio, eu apenas me escondo no medo de me apegar à saudade, na realização plena de perder o controle e insistir numa intimidade que já passou. Num jogo de estratégia e esperança que você venha e diga algo de mais profundo que "Feliz aniversário". Onde haja um longo papo sobre algum nova série que te fez lembrar de mim, qualquer coisa que demonstre que eu ainda importo. Mas no fim essa é a menor possibilidade e por isso a única que me aquece.
É hora de cortar os laços, de te deixar ir, eu sei. Manter você perto de longe é um exercício infrutífero e tortuoso. Mas confesso que ainda não sei como. Eu apenas espero, parado no meio do caminho. Te evitando com toda força e toda fraqueza que me resta.

Friday, March 01, 2013

TOCAIA

Era tarde demais. Já não haviam carros, nem os guardinhas, nem mesmo os cães sem dono que costumam vagar por ali. O silêncio era tão plausível quanto o sereno, deitando manso por sobre a casa. Adalberto pulou a mureta e foi entrando. Resoluto e tremendo como um nóia tentando parecer de cara.Tragicômico. Sacou o chaveiro segurando o guizo, mesmo seu ínfimo soar destoava, com cuidado enfiou a chave, girou e pôde perceber a luz acesa no banheiro do quarto. Aquele era um hábito seu. Tinha pouca visão á noite e para não tropecar sempre pedia a ela que deixasse uma luz acesa. Um farol que conduzisse aos afagos e dengos, ao porto seguro. Flutuou pela mobília  e cruzou a pequena sala da quase kitinete. O peito ribombava, cada passo era contado. O condenado marcha resignado em direcão ao cadafalso.

O quarto era basicamente completo pela cama King Size, o que sobrava era uma nesga passagem e o criado mudo. Onde residiam perfume, pente e os remédios. Se lembrou do cheiro, do ritual de aplicar o perfume nela. A intimidade das mãos molhadas espalhando o aroma no seu corpo, misturado ao sabonete o perfume se transmutava, assim como ela. De fêmea para menina, cheia de risadinhas e com os olhos brilhantes. Rediviva. Tudo parecia recente, mas também surreal. Como se tivesse sonhado ou apenas imaginado um momento mais feliz. Mas eram esses momentos que tinham conduzido tudo. Inclusive a invasão.

Podia ver de modo claro agora. O dorso nú, as costas, bunda, coxas, o cabelo em desalinho. Ao seu lado direito um corpo estranho, tatuado. Na ponta oposta, encolhida, uma outra fêmea, coberta até a cintura.
Em outra situacão aquilo seria excitante. Voyeur realizado, invadindo intimidades, vendo sem ser visto.
Não era. Aquela intimidade fora sua.  Podia se ver expulso dali. Aqueles dois corpos ocupavam tudo que julgara seu. Voltou a saleta, mexeu no frigobar e encontrou uma pequena garrafa com água de coco. Tomou de modo sôfrego. Tateou o bolso da jaqueta e sacou o cigarro. Hora de ponderar. De ver a cara do monstro e rosnar de volta. Acendeu o cancer, tragou fundo e se viu como mais um.

Sentiu a saudade dela se aproximar como uma dor de dente. Haverá um porre, amigos dando ombros e o inevitável choro e vontade de contato. Já houveram outros fins de caso, eram primos de outro estado. Vinham de tempos em tempos, passavam uns dias e depois de baguncar tudo, voltavam para suas vidas distantes. Sempre com a promessa de retorno. Era tudo tão imprevisível quanto comum. Dessa vez não lhe restava nem o orgulho patético dos traídos. Ela o avisara que não lhe pertencia, ela podia dormir com quem quisesse. Sexualmente solteira. Ficar era uma escolha. Aceitar, uma obrigacão. Mas seu ego, a intensidade do seu sentimento e uma completa falta de coragem, tiveram de ver. De ter certeza que ela era capaz de ir até o fim. Não importava o quanto seu sexo pudesse, seus carinhos tentassem, sua lógica torta insistisse. Adalberto e ela não seriam um casal. Só a impressão de um. No fim, seu papel era de coadjuvante, um desses que passa desapercebido. Algumas falas e impostacão. O ato era findo.

Apagou o cigarro, catou sua muda de roupas no banheiro, sem pensar se viu quebrando a escova de dentes. Um sinal da dor vindoura, que a escovacão não previniu. Ouvia "trocando em miúdos" tocando dentro dele.  Resolveu escrever no espelho com aquele batom rosado que ela tantas vezes o fez provar no beijo. Releu a frase e jurou que esse seria o mantra de agora em diante. Estava lívido. Tirou a chave do bolso e deixou sobre a pia. Os ladrões também dormem cedo. O tatuado ia ter de protegê-la. Não era mais sua funcão.

Saiu com o chuvisco, assim que passou pela mureta ele se tornou chuva. O batismo de fogo era apagado. A solidão e Adalberto se reencontram. Ela não envelhecera nem um dia.

Sunday, September 11, 2011

1000 vezes...

1000 vezes perdoar um vacilão do que uma única um canalha.Esse mote tem norteado meu vesgo passar pela vida mas nem sempre o norte é para onde minha bússsola aponta.Perdi amigos e amores, fui menos amado do que amei.Travar a si mesmo é se manter incorrendo nos mesmos velhos erros, é jogar pela janelas suas melhores chances e ainda culpar outros por isso.O destino se resume a óbvia consequência de escolhas, o pior resulta da falta de coragem de buscar o melhor.
Acreditei piamente em quem eu queria e não em quem merecia.Fiz ouvidos moucos aos avisos dos meus raros amigos e mergulhei de cara no chão frio.Dentes quebrados viram presas para quem já não aguenta mais chorar baixinho.Viver em fúria é 1000 vezes melhor do que sobreviver em auto piedade. Esta é a morada dos covardes, onde tive apartamento e vaga na garagem.Fui eu!Mea máxima culpa!Todos os canalhas foram convidados á minha festa, todos beberam de minhas melhores expectativas.As resteiras estavam previstas, eram talvez queridas.Me ajudavam a construir o argumento de que meu inimigo era o mundo e não eu.
Me tornei um tipo estranho de masoquista, que devora os detalhes das vezes em que fui traído e que os repente baixinho.Não pela chance de aprendizado, mas pelo doce sabor de estar por baixo e de lá pedir piedade.Implorar por mais castigos e ser digno de pena.
No fim eu pedôo o vacilo, eu alimento mais um capítulo e vou me traindo e traindo e traindo....

Tuesday, March 02, 2010

Sério?

É incrivelmente engraçado pensar que os "verdadeiros roqueiros" dos anos 70 detestavam disco music. A mesma música que havia saído do gueto gay/negro/latino moveu os dois do underground para o mainstream com menos de trinta anos de diferença e ainda assim havia algo de mecânico demais e liberal demais no que a disco causava.
Hoje é a mesma ladainha em relação a música eletrônica e os "verdadeiros roqueiros". Punks, pra mim, são os descendentes de jamaicanos nascidos numa Grã-Bretanha intensamente racista que os renegou ao terceiro plano. Esses caras inventaram o ska, que foi a base mais marcante entre bandas como os Sex Pistols e o Clash. Mas, ainda assim, o título, a grana e o hype cairam no colo dos meninos bonitinhos que andavam desempregados na mesma Londres, cercada de Handsworth por todos os lados. E é claro que ela foi palco de uma pequena revolução em 77, mas aí já era tarde demais.
Aí o primeiro dos Pistols saiu e a modinha dominou o mundo. E mesmo os filhos da elite quatrocentona paulista podiam se dizer punks, com seus ternos coloridos, cabelos tingidos e frases de super autoafirmação. Tudo isso é história que continua se repetindo nas frases ridículas sobre a chatice que é o hip hop, o rap e aquele bando de caras que falam se movendo demais, que tem dentes de menos e uma atitude meio, tipo... roqueira?!?

Wednesday, August 12, 2009

Causo

Ele vê a presa e prepara o ataque,meio de lado, vencendo no baque, a fera pronta p/o abate,é carne na mesa,contento. Confusão.Quem fica com a melhor parte,quem manda nas coisas e quem late,quem chegou atrasado e ainda comeu?Mas eis que surge um urro de atitude.Disparado de modo muito rude,por algum que armou as arapucas,rastreou ou prestou mais atenção.O guerreiro que teve pau p/ andar no mato,já foi até um dos pacatos,comia quieto e calado, até que faltou ali no prato.Aí ele quis gritar.Aí ele quis altercação.Foi entrando logo no contra vento.Para a caça não sentir o seu cheiro,já entrou preparado. Os ouvidos abertos e o bico calado,olhos mirando apertado e o tacape bem firme na mão.Não matou, mas catou bem a cena: algum comparsa de mão mais certeira,bateu forte que o sangue espirrou.Derramou quente uma gota pequena,que bateu forte e ainda cheia de vida, e a carne em volta queimou.Foi nessa mesa,comendo,que foi decidido o destino.Vai primeiro escolher o seu naco:Os que foram saindo do ninho,encarando as entranhas do medo.Matando não por prazer e nem a passeio.Apenas e somente p/ poder existir.

Sunday, July 12, 2009

Far,gone and out...

E como se fosse feita de puro ar,ela se vai.Deixando a boca seca, o peito pesado, as pernas trêmulas,milhões de borboletas voam em seu estômago.Tudo que resta são lembranças;nítidas como fotos,embaçadas como sonhos e reincidentes como a febre que sempre acompanha a paixão.
Saiu do aeroporto lívido,como se fosse acordar a qualquer momento e olhar ela dormindo,o bichinho,todo encolhido e indefeso.Ele lembra das promessas silenciosas de proteção e cuidado que a imagem lhe desperta..."Será que ela levou os remédios?Casaco?"pensava,já não podia dizer mais nada com urgência ou ao menos receber resposta.Tomou a condução calculando os dias que faltavam, as horas e minutos.Deprimentes,todos eles.Números longos e frios,conversando animadamente numa mesa de bar como os casais,os detestáveis casais felizes que iam habitar os lugares onde iria para esquecer um pouco da saudade.
Ao fim do dia,um telefonema.Um sinal claro,aquela dor era mútua!Sim!Morreriam os dois de amor,enfim um final adequado para um romântico.Mas ela soou tão feliz,que ele se irrtou.Famílias são adendos ridículos, Montéquios e Cepuletos que não entendem as ligações eternas e caras bobas pela casa.Nunca compreenderão os verdadeiros românticos,eles pensam em comprar roupas e fazer almoço.Tolos.
No final ele dormiu o sono dos que esperam,dos que anseiam,dos que podem viver a doce dor do amor correspondido de longe, porvir é o apelido do romance.